Vestido de festa preto, meia de seda e sapatos de salto compunham o visual da menina. Bonita e desajeitada. Em plena adolescência, aprendendo a se equilibrar, chegando perto das mulheres que antes só lhe cabia admirar. A primeira vez. Mesmo quieta, sentia que agora fazia parte do som da festa. Por anos, apenas escutara de seu quarto o burburinho, imaginando o enredo. Música, falas, copos, risadas. Olhava o pai recebendo os primeiros convidados. A mãe dava uma última mirada na sala sem móveis transformada em pista. Uma piscadela para a filha. Um sorriso para uma amiga. Um gole na bebida. O pai começava a ser tirado para dançar. A mãe mexeu de modo tenso no vestido. A filha percebera. Ecoava a briga da tarde. Você que não dance com as outras, com todas, menos comigo! Não faça papel de louca! O pai dançarino. A mulher agradeceu-lhe a dança com um beijo longo no rosto. Muito perto da boca. A menina entendia a mãe. Há muito, o marido não lhe fazia o par. Queria mantê-la longe do garçom. Mas vidrada no pai, perdera a conta dos copos da mãe. Presenciaria o escândalo que das outras vezes apenas ouvira do quarto, apertando com força o travesseiro e fechando os olhos como se fossem ouvidos. Algumas mulheres amparam a mãe, pegam-lhe pelo braço, oferecem-lhe café. As lágrimas turvam a cena e borram a maquiagem da menina. Uma mão quente e firme toca em seu ombro nu. Reconhece a voz. Vamos dançar, minha filha? E concentra-se nos passos de seu professor. São dois prá lá, dois prá cá.
Ana Carolina Carvalho
Fonte: releituras.com
Ana Carolina Carvalho
Fonte: releituras.com
Posted by alone Dated10jul2011
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