Eu e SÓ EU...

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Chegar ou partir...

Como EU sou...

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Bom Dia, Boa Noite... "essas coisas"!

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PORTUGAL é "só isto"...?!... NÃO... essencialmente, é UM POVO...!!!

Provérbios

“Só um sentido de invenção e uma necessidade intensa de criar levam o homem a revoltar-se, a descobrir e a descobrir-se com lucidez”. (Pablo Picasso)

PORTRAIT




Não importa quantos passos você deu para trás, o importante é quantos passos, agora, você vai dar para frente.

Gedeão


Eu, quando choro, não choro eu. Chora aquilo que nos homens em todo o tempo sofreu. As lágrimas são as minhas mas o choro não é meu.A.Gedeão

A(o)s que me deixam MENOS alone...!!!

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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O Desaparecido



Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.




Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

Rubem Braga


Do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1969, pág. 112, extraímos o texto acima.

Fonte: releituras.com





Posted by alone Dated24aug2011


terça-feira, 10 de maio de 2011

A mulher automática






(De São Paulo) — Qual é o seu cargo?

— Esteno-dáctilo-serpente-contralto-secretária...

— Isso é novidade. Eu ouvi no rádio naquele debate sobre a mulher moderna: esteno-dáctilo-serpente-secretária
— A mulher atual!

— Ainda tem mais!
Ponha glamour!

— Que é isso?

— Glamour é assim como eu sou.
De concurso!

O homem pálido que esperava há duas horas examinou com os olhos a morena iodada no coral solto do vestido, sandálias de purpurina, cabelo lustroso, brincos, balangandãs e pulseiras, um beiço em ciclamen por Salvador Dali.

— O senhor sabe? Comprei ontem um leque que cheira. É formidável!
Da América!

A voz grossa trauteou
"La vie en rose".

— Dei o fora no meu darling porque ele não me levou à boîte para ver o Charles Trenet.
Fui com Mister Ubirajara.

— Quem é Mister Ubirajara?

— Acho que é canadense. Um gordo do anúncio. Tem gaita e possui um guarda-roupa perfeito. Dois ternos por dia! Me levou a Santo Amaro num 1950 formidável.
Tomamos muitos drinks.

Na ante-sala de móveis mecânicos o telefone ressoou.

— Aposto que é o turco! Deixa tocar... Ele fala "negócio". Quer saber do "negócio" dele.
Como se eu estivesse aqui para dar informações!

O telefone insiste.

— O senhor saber? Um marinheiro contrabandista foi ao meu apartamento levar uns cortes de tropical e uns relógios suíços. Não falava nenhuma língua. Disse por gestos que era marinheiro, da Suíça. Enquanto ele se bati um relógio-pulseira e pus ele pra fora. Começou gesticulando que faltava alguma coisa. Banquei a boba. O homem falou baiano: — Deixe de besteira moça! Não gosto disso não! Me dá o relógio!

O telefone continuava. Ela arrancou num gesto o fone
e berrou:

— Não me encha!
Não é aqui!

Desligou violentamente. A
voz do outro lado ficou dizendo humildemente:

— Esbéra, mucinha!

— Que esbéra, nada! Se ele ligar outra vez dou o telefone do Cemitério do Araçá.
Vou fazer ele falar com defunto!

Houve um silêncio rápido.
O homem pálido perguntou:

— A senhora é contralto?

— Sou. O que a mulher tem de melhor é a voz! — gritou desaparecendo numa porta volante.
— A voz e a saliva!

Oswald de Andrade

Fonte: releituras.com

Posted by alone Dated10may2011





segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Camões dirige-se aos seus contemporâneos *



Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível.
Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome.
E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu.
E para os outros ladrões,
Iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.



Jorge de Sena **

Sobre o Autor

** Escritor português, licenciado em Engenharia Civil, nasceu em Lisboa em 1919, radicou-se no Brasil em 1959 e nos Estados Unidos da América em 1965, onde veio a falecer em 1978. Tem uma vasta obra de ficção, drama, ensaio e poesia.



Posted by alone

Dated14fev11

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Pássaros nasceram para voar


O mundo sempre me pareceu um grande mistério. Lembro que ainda pequena, eu devia ter uns seis ou sete anos, vi minha irmã mais velha abater um passarinho para depois, com a ajuda de alguns amigos, dissecá-lo como a um sapo de laboratório familiar. Não arrisco explicar, aos olhos daquela menina, todo o sentimento que a cena lhe trouxe. Mas desconfio que deva ter sido algo aterrador, pois desde então, e observe que já se passaram muitos anos, passei a sentir a vida como uma eterna sucessão de enganos. Eu não cabia na família, na escola, no trabalho e, de resto, nem em mim mesma.

De início, achavam que se tratava apenas de timidez. Depois, os suores nas mãos e o silêncio que podia durar uma festa inteira, passou a ser visto pelos outros como arrogância. ‘Sofia, você precisa aprender a controlar suas emoções’, diziam-me os amigos mais próximos. No meio em que convivia, tornei-me o laboratório ideal para as frustrações alheias. E de tanto ouvir conselhos e repreendas, acabei por ter a sensação de que me dissecavam como àquele passarinho morto por minha irmã.

Primeiro arrancaram-me as pernas. Disseram-me que elas não me levavam na direção correta e que, portanto, não me eram úteis. Em seguida, analisaram e descartaram, um a um, os componentes desse pobre corpo. Foi quando descobri que ao invés de músculos, eu possuía raízes que se entrelaçavam e que pareciam expressar as mais longínquas memórias. E que no lugar de sangue, meus corredores vertiam um líquido gelatinoso e branco, uma seiva de vida que encerra um susto qualquer.

A simples idéia de que tal segredo pudesse vir a ser desvendado por algum de meus perscrutadores, congelava-me a alma. Pobre de mim. Como se não bastasse ter emprestado a esse mundo pernas, bocas e gestos aceitáveis, tinha ainda que esforçar-me para trocar com o ambiente externo, sentimentos corriqueiros, enxaquecas plausíveis, preocupações banais e um choro compreensível aqui e acolá.

Foi agarrada a essa indiscutível certeza que procurei encenar, neste grande palco, um medíocre, porém razoável, papel. Fiz-me mulher e deixei que rasgassem, dentro de mim, as mais finas veias. Como um acrobata, lancei-me em mãos e teias de palavras vilipendiosas. Deixei-me sugar até a última gota e derramei intranqüilas lágrimas em lençóis que nunca envelheciam. Ao final de cada espetáculo, retornava sozinha para o camarim. E ali ficava, ora imóvel — perturbada pelas ondas que me engoliam na mansidão do nada —, ora debatendo-me nas paredes invisíveis que me serviam de prisão.


Com o tempo, desisti de procurar aceitação. Percebi que de alguma forma não merecia ser amada, nem tampouco compreendida. Agarrei-me aos galhos que cresciam silenciosamente em meu mundo, adubando, no frescor das noites insones, algumas poucas lembranças que me pudessem ser úteis. Deixei que transbordasse nas veias partidas pelos inúmeros erros que cometi, aquilo que outrora era líquido e que não sei por qual motivo específico, tornara-se uma gosma pegajosa. Na solidão e na ausência, preguei em cada parede um retrato do que poderia ter sido minha existência e lancei-me aos ventos, experimentando a liberdade do pássaro que desconhece o momento exato da morte. E é feliz por existir na inocência de que está sempre pronto para o abate.


Vássia Silveira



Posted by alone

Dated03jan11

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sombra dos olhos


Isso é muito pouco! Ele gritou, tão alto e tão grave que ela sentiu toda a raiva de seus pulmões cansados. Cansados de tudo. Da idade, da fumaça do cigarro, do ar condensado de mágoa, do silêncio, da indiferença, do abandono.

Ao ouvir isso, ela apenas o olhou por entre as sobrancelhas com ar de pena, soltando da boca uma nuvem branca de tédio que subiu até o teto de madeira entalhada em rococó. Perfeito como foi no início.

Contaminado de desgosto, ele contemplou longamente aquela mulher. Vendo seus olhos pintados de sombra cintilante e o cabelo ajeitado num penteado duro como seu olhar, lembrou-se de quando ela lhe disse pela primeira vez que o amava. Em seus olhos não havia sombra. Ao contrário. Brilhando a luz do Sol, as pupilas não eram negras, mas douradas, da cor do compromisso na mão direita.

Os dias se passavam como horas, e cada hora longe um do outro pareciam dias. Sempre juntos, já não se sabiam mais divididos.

Quando veio o outono, o frio chegou cedo demais e atacou a plantação e os negócios da família. E, como não bastasse, ele começou a sentir suas mãos leves demais, tremulando inconstantes feito as folhas secas que via, através do vidro, desprendendo-se dos galhos de salgueiro no jardim. Foi quando ele percebeu que o olhar dela tornara-se opaco.

Enquanto se perdia de tudo e de si, também a perdia.

Certa manhã, ela sentou-se ao lado dele para o café numa proximidade infinitamente distante. No salto-agulha, os pés dela alfinetavam, assim como os da cadeira, o antigo tapete vermelho, agora desbotado, cor de carne sem sangue. Meia hora em que ela apenas mordia, sorvia e engolia sons. Ao fundo, ele só ouvia a vibração do ar entrando e saindo de seus pulmões, quase sufocado pelo peso dos próprios pensamentos.

Ali, naquele instante, ele notou pela primeira vez aquela sombra pérola nos olhos dela. E ela já não era tão bonita. Estrela apagada, tentava refletir alguma luz no brilho em pó sobre as pálpebras mirradas. No rosto marcado da mulher, ele lia os anos que passaram juntos, como em um álbum de família. Recordava os tempos bons, revivia-os. Escondia-se dela e de si na lembrança.

Naquela noite de inverno, em frente à lareira, sentiu-se asfixiado de um completo vazio. Uma pessoa-copo-plástico, descartável. A sala havia se tornado imensa para conter sua presença esmigalhada, mas minúscula para abrigar os escombros de vida sobre seus ombros.

Ela não estava partindo para economizar os parcos tostões que lhes sobraram, deixando-o mais confortável. Ao contrário, estava deixando-o, confortavelmente, para não precisar mais carregar aquele corpo pesado e doente. Não era nele que ela pensava.

Mas ele sim pensava nela, em tudo o que fez por ela. Construiu forças sobre os entulhos sentimentais e as soprou com todo o ar de seu peito.

Ouvindo aquele grito desesperado e profuso, ela deixou escapar seu último fantasma de fumaça, depositou o resto de cigarro ainda aceso sobre o cinzeiro e, mergulhada em si, levantou-se e saiu.

Enquanto escutava os pequenos passos se afastando, ele permaneceu calado, observando as fracas chamas na lareira. Refletidas pelas gotas de cristal do lustre, elas se espalhavam pela escuridão da sala feito chagas. Olhava, mas não via o fogo que quase se extinguia naquela última lenha velha, queimando o último pedaço, assim como o cigarro no cinzeiro.



Michelle Horst



Posted by alone


Dated 15nov10