Eu e SÓ EU...

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Bom Dia, Boa Noite... "essas coisas"!

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PORTUGAL é "só isto"...?!... NÃO... essencialmente, é UM POVO...!!!

Provérbios

“Só um sentido de invenção e uma necessidade intensa de criar levam o homem a revoltar-se, a descobrir e a descobrir-se com lucidez”. (Pablo Picasso)

PORTRAIT




Não importa quantos passos você deu para trás, o importante é quantos passos, agora, você vai dar para frente.

Gedeão


Eu, quando choro, não choro eu. Chora aquilo que nos homens em todo o tempo sofreu. As lágrimas são as minhas mas o choro não é meu.A.Gedeão

A(o)s que me deixam MENOS alone...!!!

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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Achadas e Perdidas



Uma bala perdida alcançou o ator Older Cazarré no sono, e o matou. No dia 12 do mês, uma menina de nove anos tinha sido ferida por uma bala perdida, quando brincava em sua casa, em Vila Isabel (sua casa estava sendo atingida pela terceira vez). E no dia seguinte, em Costa Barros, cinco crianças foram feridas pelas sobras de um tiroteio entre PMs e,traficantes. O mês em nada se diferencia dos meses anteriores. E, como todos os meses no Rio de Janeiro, tempo de safra das balas perdidas.

Pergunto-me por que continuamos usando essa expressão "bala perdida". Afinal, perdido é aquilo que sumiu, que não mais conseguimos encontrar. E as balas perdidas sabemos muito bem onde vão parar. Só no prédio de Cazarré a polícia recolheu cinco delas, sendo que uma estava encravada na cabeceira da cama do subsíndico José Carlos Freire, a um palmo da sua cabeça.

Perdido é também aquilo que foi destruído, que é irrecuperável. Mas as balas perdidas são recuperabilíssimas; para reavê-las, basta afundar o canivete na parede de uma casa pacífica ou na cabeceira de uma cama, e mergulhar o bisturi na carne. E certamente não foram destruídas. Destruídos são a pele, o osso, o órgão. Destruídos são a segurança.
E a vida.

Usa-se a palavra "perdida" também no sentido de distante, longínqua. Mas bem gostaríamos que as balas perdidas estivessem distantes. Antes aparentemente longínquas porque limitadas às áreas de banditagem, estão se aproximando a cada dia, varando nossas vidraças e nossa serenidade. Bala perdida, hoje,
é justamente aquela mais próxima do que todas as outras, a que nos atinge.

Perdida significa ainda prostituta, a que, por dinheiro se concede. E mais uma vez a palavra não encaixa nessas balas que, como pipas negras, cruzam nossos ares. Bala prostituta não é aquela que atinge quase ao acaso pessoas de bem, pessoas que nada têm a ver com as transações nefandas em cujo nome a bala é disparada. Bala prostituta
é aquela que cumpre sua tarefa, que mata por dinheiro, e que só por dinheiro se "concede".

E, ainda dentro do mesmo sentido, perdida quer dizer aquela que "sai do bom caminho". Mas como aceitar que o percurso de uma bala, visando a morte, seja considerado um bom caminho? Ainda que saia da arma de um traficante para o peito de outro traficante ou mesmo da arma de um policial para o peito de um meliante, a bala traça sempre o pior de todos os caminhos. E repugna considerar bom um caminho da morte, apenas porque obedece à mira. Não existe bom caminho para as balas. Nem na guerra, nem na caça.
E muito menos no cotidiano de uma cidade.

Assim também a consciência hesita em aceitar seu sentido como "errada". Não apenas porque não podemos concordar com a existência da bala certa, mas porque, se é verdade que a bala perdida errou o alvo, é igualmente verdade que acertou sua função. Pois quem fabrica o projétil e o enche de pólvora não está lhe incutindo um alvo, mas apenas dando-lhe a capacidade de penetrar, rasgar e explodir, que são sua razåo de ser.
Bala errada, e portanto bala perdida, é para seu fabricante a que se perde na grama, sem condições de ferir ninguém, nem hoje nem nunca. E a bala que desperdiça seu poder mortífero.

Nem lhe cabe o sentido de "aflita" ou "ansiosa", que o dicionário registra. Uma bala nunca está ansiosa. Uma bala não hesita, não treme. Uma vez disparada, é objetiva e direta. Ansioso pode estar aquele que aperta o gatilho.
E aflito fica quem recebe o tiro, ou quem vê o próprio filho atingido enquanto brinca no quintal de casa.

Há sentidos, porém, que se lhe aplicam. É certo, sim, dizer que a bala é perdida, porquanto "pervertida".
A bala que fere ou mata aquele que apenas cruzou seu percurso, como se cruza uma linha de trem, é certamente mais pervertida do que a pervertida bala que mata a vítima visada.

E é "amoral" essa bala. É amoral porque mata pessoas inocentes — embora as culpadas também não devessem ser mortas. É amoral porque não obedece sequer à questionável moral do submundo, porque escapa à moral da guerra que a dispara. E é amoral porque dela ninguém pode se defender. Quem parte para um duelo sabe o que busca, quem parte para a guerra sabe ao que vai de encontro,
mas quem dorme em sua cama não sabe o risco que corre.

Perdida quer dizer ainda "sem esperança ou salvação". Uma cidade cruzada por balas perdidas é uma cidade sem esperança ou salvação. Mas as balas perdidas podem tomar-se uma espécie em extinção,
quando a sociedade põe um basta nas balas achadas.

Marina Colasanti
(1992)


Marina Colasanti (1938) nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil.



Fonte: releituras.com




Nota de alone: a "intenção" da reprodução deste texto, escrito por Marina Colasanti em 1992, não está só na escolha deste tema em si mesmo mas, também, porque poderia ter sido AGORA acabadinho de escrever . NADA se modificou de lá até aos nossos dias (2011).





Posted by alone Dated16aug2011


sexta-feira, 15 de julho de 2011

Como é mesmo o nome?



Levou o manequim de madeira à festa porque não tinha companhia e não queria ir sozinho.

Gravata bordeaux, seda. Camisa pregueada, cambraia. Terno riscado, lã. Tudo do bom. Suas melhores roupas na madeira bem talhada, bem lixada, bem pintada, melhor corpo. Só as meias um pouco grossas, o que porém se denunciaria apenas se o manequim cruzasse as pernas. Para o nariz firmemente obstruído, um lenço no bolsinho.

No relógio de ouro do pulso torneado, a festa já tinha começado há algum tempo.

Sorridentes, os donos da casa se declararam encantados por ter ele trazido um amigo.

— Os amigos dos nossos amigos são nossos amigos — disseram saboreando a generosidade da sua atitude. E o apresentaram a outros convidados, amigos e amigos de nossos amigos. Todos exibiram os dentes em amável sorriso.

Recebeu o copo de uísque, sua senha. E foi colocado no canto esquerdo da sala, entre a porta e a cômoda inglesa, onde mais se harmonizaria com a decoração.

A meia hilaridade pintada com tinta esmalte e reforçada com verniz náutico exortava outras hilaridades a se manterem constantes, embora nenhuma alcançasse idêntico brilho. Abriam-se os transitórios vizinhos em amenidades que o compreensivo calar-se do outro logo transformava em confidências. Enfim alguém que sabia ouvir. Relatos sibilavam por entre gengivas à mostra e se perdiam em quase espuma na comissura dos lábios. Cabeças aproximavam-se, cúmplices. Apertavam-se as pálpebras no dardejado do olhar. O ruge, o seio, o ventre, a veia expandida palpitavam. O gelo no uísque fazia-se água.

A própria dona da casa ocupou-se dele na refrega de gentilezas. Trocou-lhe o copo ainda cheio e suado por outro de puras pedras e âmbar. Atirou-se à conversa sem preocupações de tema, cuidando apenas de mantê-lo entretido. Do que logo se arrependeu, naufragando na ironia do sorriso que lhe era oferecido de perfil. A necessidade de assunto mais profundo levou-a à única notícia lida nos últimos meses. E nela avançou estimulada pelo silêncio do outro, logo úmida de felicidade frente a alguém que finalmente não a interrompia. No mais frondoso do relato o marido, entre convivas, a exigiu com um sinal. Afastou-se prometendo voltar.

O brilho de uma calvície abandonou o centro da sala e coruscou a seu lado, derramando-lhe sobre o ombro confissões impudicas, relato de farta atividade extraconjugal. Sem obter comentários, sequer um aceno, o senhor louvou intimamente a discrição, achando-a, porém, algo excessiva entre homens. Homens menos excessivos aguardavam em outros cantos da sala a repetição de suas histórias.

Não acendeu o cigarro de uma dama e esta ofendeu-se, já não havia cavalheiros como antigamente. Não acendeu o cigarro de outra dama e esta encantou-se, sabia bem o que se esconde atrás de certo cavalheirismo de antigamente. Os cinzeiros acolheram os cigarros sem uso.

Um cavalheiro sentiu-se agredido pelo seu desprezo. Um outro pela sua superioridade. Um doutor enalteceu-lhe a modéstia. Um senhor acusou-lhe a empáfia. E o jovem que o segurou pelo braço surpreendeu-se com sua rígida força viril.

Nenhum suor na testa. Nenhum tremor na mão. Sequer uma ponta de tédio. Imperturbável, o manequim de madeira varava a festa em que os outros aos poucos se descompunham.

Já não eram como tinham chegado. As mechas escapavam, amoleciam os colarinhos, secreções escorriam nas peles pegajosas. Só os sorrisos se mantinham, agora descorados.

No relógio torneado do pulso rijo a festa estava em tempo de acabar.

As mulheres recolhiam as bolsas com discrição. Os amigos, os amigos dos amigos, os novos amigos dos velhos amigos deslizavam porta afora.

Mais tarde, a dona da casa, tirando a maquilagem na paz final do banheiro, dedos no pote de creme, comentava a festa com o marido.

— Gostei — concluiu alastrando preto e vermelho no rosto em nova máscara —, gostei mesmo daquele convidado, aquele atencioso, de terno riscado, aquele, como é mesmo o nome?

Marina Colasanti

Fonte: releituras.com


Posted by alone Dated15jul2011